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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Dar

Tinha anoitecido há pouco tempo. O céu tinha ainda um tom azulado enquanto passeávamos pela rua da baixa. Entre sons de conversas em castelhano e a agitação natural de uma multidão que regressa a casa depois de um dia de trabalho, havia um som que destoava. Que beleza de som!

Sorrimos um para o outro, fizeste questão de olhar para mim de forma cúmplice por saberes que eram sons muito familiares ao meu ouvido e à minha voz. Eu, na minha egoísta caminhada, continuei a andar. Tu puxaste-me violentamente pela mão. Paraste e furaste aos s's na diagonal entre a multidão que deambulava desenfreadamente como se estivesse atrasada para viver o ontem. Paraste na clareira de gente que admirava a voz daquela mulher que te encantou, que te despertou a atenção. Sentada no chão, de vestes sujas, de saia comprida e camisa engelhada, cabelos compridos embrulhados e meia descalça, ali estava ela cantando, o bel-canto que entoava pela rua fora e se sobrepunha a todo o barulho de rua. Dona de uma voz melodiosa entre notas musicais agrestes, ficámos a ouvi-la. Tinha postura de artista, um ar desgrenhado mas com uma voz superiormente divinal, cantando à capela árias de grande dificuldade.

Eu fiquei ali alguns momentos desconcertada e digerir tudo o que estava a ver e a ouvir, espantada pela coragem daquela mulher de se expôr na sua arte, entre público que, na sua maioria, não a merece. Tu não ficaste indiferente, deste crédito ao teu ouvido e procuraste o som, apreciaste e encantaste-te.

No final, aplaudiste e todos os que a escutavam aplaudiram, como se aquela clareira de gente que rodeou aquela mulher estivesse a envolvê-la numa grande sala de espectáculos, cujos ingressos são caros e onde só entra gente vestida a rigor para a ocasião. Foi em sinal de reconhecimento pelo bom momento proporcionado. Ninguém pagou bilhete para assistir ao espectáculo de rua, mas tu sabes quando alguém te faz bem e não temes o reconhecimento. Olhando a senhora que aparentava pouco mais de quarenta anos e, com o franzir de lábios que sabes fazer perante as injustiças, pegaste em dinheiro e foste entregar-lho.

Não sei o que terá pensado aquela criatura sentada no chão ao ver-te a aproximares-te dela e a ser presenteada. Mas eu sei o que senti: um enorme orgulho por te conhecer e por ter ao meu lado um ser humano tão bom. Senti-me também envergonhada, muito envergonhada. Porque, muito mais que tu e muito mais rapidamente, deveria ter ido ao encontro daquela mulher para ouvi-la, eu muito mais que tu deveria aplaudi-la e presenteá-la pelo excelente trabalho e pelo bom momento que me proporcionou. Deveria dar, dar, dar. E não dei, fiquei quieta a ver-te ir e voltar de sorriso nos lábios. Ah! Que raiva que senti de mim naquele momento. Não te disse nada do que estava a sentir, valeram os minutos seguintes de caminhada a digerir o momento e a pensar nesta prova de que és uma alma grande, do quanto és nobre. Do quanto és um ser humano na sua plenitude do bem. E eu se calhar nem te mereço.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Lentamente sufocando

E tenho vontade de gritar. De me gritar. Tudo o que sei, tudo o que não sei. Tudo o que fiz e não sabem, tudo o que dei e não quiseram ver. E quero gritar a ausência, o descontentamento, a tristeza, a saudade, a dor, o desnorte.

As lágrimas já não existem. Se ousarem existir, escorrem para dentro da alma, orvalhando a aridez que encontram pelo caminho.

Um dia espero ver o rosto da Justiça.

sábado, 16 de maio de 2009

Omissão


Nunca suportei mentiras. Desde pequena que sempre reagi mal a quem eu detectava mentiras e nunca soube evitar isso. Talvez hoje consiga disfarçar melhor o meu mal estar interior, mas o que é certo é que continuo a não gostar do sentimento que isso me provoca e acaba sempre por afectar a relação que tenho com a pessoa. Não me habituo e pronto.

O mesmo é válido para com as omissões. Sempre ouvi dizer que a omissão é uma forma de mentira. Talvez não concorde inteiramente com a frase, admitindo que há situações em que não vem mal ao mundo se não dissermos tudo. Por vezes, não dizemos porque "não calha", não é importante, nem significativo para a outra pessoa. Mas outras situações há que prejudicam e causam desconforto se o silêncio for a palavra de ordem.

Ultimamente têm-me surgido pessoas que pura e simplesmente sabem que eu preciso de saber determinadas informações e sistematicamente remetem-se ao silêncio. Aguardam que eu faça perguntas. Por vezes, canso-me de estar sempre a perguntar, aguardo que haja um iniciativa própria, mas... nada! Mesmo perguntando simples e despretensiosamente, as respostas são sempre muito vagas, pouco esclarecedoras, exigindo que eu seja mais incisiva e directa nas questões. O problema é que, quando chego a esta fase, já estou em ponto de rebuçado e as perguntas saem em ritmo de tiro de G3. Nestas alturas sou pouco "polida", necessariamente, acrescento eu.

Omitir informações (diria eu, preciosas para compreender uma situação, uma pessoa, uma vida), para mim - e correndo o risco de ser condenada por dizê-lo -, é mostrar desrespeito para com a pessoa, dizer-lhe que não é de confiança.

Odeio ter de estar a sacar informação. Odeio que me escondam coisas propositadamente, ainda que seja para me proteger, não me fazer sofrer ou para não fazer estalar o verniz. Acabo por ser eu a estalar o verniz depois e é bem pior, especialmente em casos onde eu sei que há "estória" e não abrem o jogo. Tentam iludir-me, direccionar as minhas atenções para outro lado. Tudo isto desgasta-me, mas ao longo do tempo desgasta também a relação que tenho com a pessoa. Cria uma relação de forças antagónicas, como se cada um dos lados estivesse em competição pela informação - o tesouro guardado a sete chaves. Só que de um lado esconde-se, do outro quer chegar-se à informação. E nisto de fechar a mão com a verdade lá dentro, traz consequências e não são boas para nenhum dos jogadores.